A Formação de um Corredor Marginal

A corrida como um instrumento de acesso e reconhecimento da própria cidade. Um tipo de dispositivo que permite varrer distâncias e terrenos com a mesma habilidade e potência que um pincel escorregando em uma tela de pintura.

Entender a paisagem leva tempo. Às vezes penso que vivemos há tão pouco tempo em cidades que ainda não conseguimos contemplar – ou dimensionar – a sua real existência. Ruas, lojas, estacionamentos e avenidas cumprem funções um tanto lógicas e utilitaristas. Com excessão de subversões pontuais e festivas, definimos a zona urbana como área de tráfego e de trânsito. As cidades são mais passagens do que permanências. Estamos quase sempre indo – ou voltando.

Quando resolvemos correr, naturalmente escolhemos correr por onde as pessoas já correm. Temos infinitas ruas espalhadas pela cidade, muitas delas planas, vazias e bem calçadas, mas ainda assim escolhemos as praças, os parques e demais territórios pré-definidos para a prática esportiva. Alguns diriam que estes ambientes são mais seguros. Mas podemos mudar de países e de culturas que ainda encontraremos a maioria dos corredores e corredoras nestes circuitos. De forma generalista, da mesma maneira que uma pessoa doente pensa em uma farmácia ou hospital para tratar de uma enfermidade, o novo corredor também certamente vai pensar nesta ou naquela praça para correr.

A psicologia deve conseguir explicar. Mas há algo de nebuloso em pensar como a corrida, de uma forma geral, também se encaixa nessa lógica um tanto utilitarista. Não é uma regra, claro, mas é possível identificar um corredor só pela roupa que se usa.

Lembro um dia que descia pela Avenida Agulhas Negras, correndo um tanto rápido com os meus tênis de skate e uma mochila nas costas, e um carro escuro veio pareando junto a mim, abrindo os vidros. Comecei a me afastar, preocupado, mas o motorista lá de dentro logo gritou: “Ei, você quer uma carona?”. Eu não entendi de primeira – e então ele continuou: “Tô indo para o Centro, quer uma carona?”. Ainda sem entender, agradeci, e dobrei a próxima rua. Quando passei de frente à um prédio espelhado, vi a cena: eu realmente parecia alguém atrasado. Ou um louco.

Preciso confessar que a preocupação de parecer um louco diante da sociedade foi um dos estímulos que me fizeram comprar as primeiras peças de corrida. Seguramente fiquei mais leve e confortável, mas lidava bem com a atividade mesmo indo de calça ou blusa de algodão. No final das contas, acho que não corremos fora das praças e dos parques porque a corrida, vista assim de forma aleatória, sugere mesmo algum tipo de loucura.

Minhas primeiras corridas também foram em circuitos pré-definidos, devo dizer. Durante trinta dias fiquei rodando pelas mesmas ruas e esquinas. Até que uma noite avistei uma escada no meio da rota, que me levaria à outro bairro da cidade. Esse simples equipamento urbano mudou tudo. Desci as escadas e logo cai em uma das vias mais movimentadas de Belo Horizonte. Precisei entrar em um túnel para evitar o movimento intenso dos carros e saí do outro lado correndo pelo acostamento. Quando cheguei no ponto de início da corrida, percebi que a quilometragem não tinha alterado tanto. Mas mudar a paisagem tornou toda a atividade mais leve e instigante.

Cheguei em casa e fiquei estudando a atividade registrada, como já estava virando um hábito fazer. Mas além das informações tradicionais de distância, ritmo e altimetria, fiquei minutos admirando o desenho que havia feito na paisagem. Corri de um bairro para o outro e, usando do meu próprio corpo, me locomovi pela rotina ensandecida e motorizada da cidade.

Deste dia em diante, todas as vezes que saio de casa me pergunto menos sobre a distância que vou percorrer e mais sobre o território que posso desvelar. Por inúmeras vezes me pego olhando para a esquerda e para a direita, imaginando os caminhos e as possibilidades. Se pego esquerda, vou em direção a Zona Leste. À direita, Oeste. “Qual o desenho vamos fazer hoje?”.

Em função das restrições urbanas que sempre se revelam no caminho, como trânsitos intensos, grandes avenidas e tardes de muita poluição, logo passei a experimentar curiosas trilhas que existem na margem Sul de Belo Horizonte, em direção a metropolitana cidade de Nova Lima. São caminhos um tanto abandonados, ou mesmo pouco usados, que fazem proveitosas ligações entre bairros e comunidades que, por vias urbanas, parecem tão distantes. E foi assim que descobri uma espécie de nova cidade.

Região de fronteira entre Belo Horizonte e Nova Lima. Menos de 1km em linha reta da Praça do Papa, cartão postal da cidade.


Nova Babilônia

Fui me formando corredor no mesmo período em que terminava uma pós graduação em artes plásticas e contemporaneidade. E uma das pesquisas que mais me interessava dentro da academia estava justamente ligada a questões do território – em especial os estudos dos artistas Constant, Francesco Careri e da mineira Louise Ganz.

A Nova Babilônia de Constant sugere e propõe uma cidade que se desataria desta lógica um tanto utilitarista para viver de forma viva, mutante e propositiva. Uma de suas maiores inspirações foi o movimento de ciganos, cuja ocupação do território está em constante trânsito e transformação.

Já Careri e seu grupo italiano Stalkers faziam caminhadas às margens da Roma Antiga e da Roma Moderna, desvelando uma paisagem um tanto inquieta. Na ação chamada de Stalker Attraverso i Territori Attuali, de 1995, o grupo propôs uma caminhada de 4 dias e 3 noites, 60km a pé, em torno de Roma, para visitarem o que eles chamavam de ‘Territórios Atuais’. Era como uma experiência de não-lugar, como se nem passado, nem futuro pudessem definir ou pautar a experiência urbana daquele contexto.

Uma história que se assemelha muito com os terrenos baldios espalhados pelas cidades – e que viraram tema de pesquisa no trabalho de Louise Ganz. Em Lotes Vagos, Louise propõem ocupações temporárias para esses terrenos que vão desde salão de beleza, passando por buffet de festas, hortas comunitárias e espaços de convívio. Os lotes se projetam então como ilhas lúdicas no meio de cidades sedentárias. Papel parecido tem a arte urbana, ocupando muros e espaços cinzas da paisagem.

Paisagem típica dos ‘Territórios Atuais’ de Belo Horizonte e Nova Lima. Silenciosos ‘progressos’ em processo.

Corrida Marginal

Quando acessei a linha de trem desativada que divide Belo Horizonte de Nova Lima pela primeira vez, foi como visitar a Nova Babilônia de Constant, ou experimentar um lote de Louise. Este território que já cumpriu uma função claramente utilitária hoje se manifesta de forma lúdica e difusa. O espaço é usado tanto por trilheiros, como também por moradores em situação de rua. Os pontilhões viraram ponto de encontro entre praticantes de rapel. A antiga estação virou uma morada popular. Fotógrafos fazem ensaios nos trilhos restantes. Moradores de Nova Lima e Belo Horizonte usam as trilhas como atalhos.

Parque para alguns, moradia para outros e futuro impreciso para todos. Linha do trem desativada entre BH e Nova Lima.

Depois de visitar o trilho uma vez, já não conseguia correr em outro lugar senão por esta região de fronteira. Estudando as atividades, passei a mapear todos os caminhos e atalhos disponíveis na região da Serra do Curral e da Mata do Jambreiro, dois possíveis roteiros de lazer que sofrem dezenas de questões e privações que limitam seu acesso à população. Progressivamente me tornei aquilo que o dicionário chama de Marginal – e que a sociedade incorporou para definir todo tipo de desviante que não se enquadra dentro da lei.

Dentre todas as narrativas que habitam o universo da atividade física, da performance ao bem-estar, nascia para mim uma ótica de entender a corrida como um instrumento de acesso e conhecimento da cidade. Tanto em suas margens físicas, mas também às margens de seu utilitarismo. Um tipo de dispositivo que permite varrer distâncias e terrenos com a mesma habilidade e potência que um pincel escorregando em uma tela de pintura.

A Corrida Marginal é, portanto, tanto um questionamento dos modelos impostos, como também a proposição de novos caminhos possíveis. Um meio de libertar a corrida das tantas amarras que lhe foram constituídas – e uma permissão para retomar o genuíno movimento do nosso corpo pela cidade e pela paisagem. Afinal, não devemos nunca esquecer que correr é um movimento livre. Basta sair para ver.

Às Margens, em foto do Raul Sampaio.
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