Sempre Teremos Lafaiete

Todas as vezes que venho para Conselheiro Lafaiete mergulho em uma imensidão de afeto e de carinho. Um dia me disseram que esta é uma cidade “muito feia”. Fiquei sem entender, até perceber que Lafaiete representa bastante o que entendo por amor.

Não faz muito tempo que alguém me disse, um tanto friamente, que Conselheiro Lafaiete é uma cidade “muito feia”. Recebi este adjetivo com tamanha surpresa que ainda fiquei um bom tempo tentando digerir e encontrar algum sentido. Por mais óbvia que tal constatação possa ser, especialmente para os corriqueiros transeuntes à caminho do mar, na memória que habita em mim não existe lugar mais bonito. No final das contas, acho que essa dualidade de interpretações explica bastante a maneira como entendo o amor.

De fato, Conselheiro Lafaiete não é lá a cidade que chamaríamos de bonita em primeira instância. Vítima de um progresso um tanto voraz, a antiga Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre dos Carijós tem assistido à sua desconstrução histórica desde o final do século XVII, quando começou a ser povoada por índios Carijós fugidos dos brancos que chegavam no litoral. Cumpriu papel importante na virada para o século XVIII, quando as lavras da vizinha Itaverava iam bem – e portanto demandavam suporte de hospedarias e alimentos, já que logo se descobriu que não era possível comer ouro.

No mesmo período tornou-se rota do recém aberto Caminho Novo, definido entre 1722 e 1725, que ligava Rio de Janeiro às minas de Ouro Preto. De lá ainda se seguiam para Diamantina, no emblemático e tortuoso Caminho Velho, onde circulavam os diamantes.

No século XIX Lafaiete se viu cortada pela Estrada de Ferro Central do Brasil (1883) e viveu uma nova onda de crescimento. É deste período boa parte das construções históricas que ainda hoje se vê nas ruas, como os casebres que se enfileiram às margens da estação ferroviária. No século XX, casas modernistas passaram a ganhar a parte mais alta da cidade, com vistas avantajadas para porções de mata atlântica que quase não existem mais.

A história da minha família está intimamente ligada à Lafaiete. Meus bisavós maternos já circulavam por estas bandas. Meus avós paternos, vindos de Itabirito e de Santos Dumont, se conheceram em uma praça da cidade. Minha mãe e meu pai nasceram aqui. A minha geração, irmãos e primos originários principalmente a partir dos anos 1980, é a primeira a nascer em Belo Horizonte. Somos parte de um momento em que se fortalece a perspectiva que o sucesso está na “cidade grande” ou “na capital”.

Como boa parte das vilas históricas mineiras que não se adaptaram à fase seguinte da corrida do ouro, Conselheiro Lafaiete aceitou as coordenadas do próprio destino. Enquanto as vizinhas Ouro Preto, Lavras Novas e Congonhas se ajustavam e se equilibravam em torno do turismo – uma alternativa econômica razoavelmente possível – Lafaiete seguiu dependente do comércio e da siderurgia. E há pelo menos 50 anos vem assistindo a demolição de casas, casarões e memórias que poderiam preservar a estética do que chamam de “bonito”.

Apesar de não ter nascido em Lafaiete, visito e cultivo relações com a cidade desde os meus primeiros meses de vida. Foi aqui que fiz as minhas primeiras amizades, as primeiras pedaladas sem rodinha e as primeiras escaladas em árvores. Foi aqui que aprendi a andar, a correr, a passear nas ruas, jogar futebol nas praças e a interagir com o espaço urbano. Foi aqui que aprendi o sentido da liberdade, quando em Belo Horizonte a minha rotina se resumia ao pilotis de um prédio e aos limites físicos da escola.

Quando falo que Conselheiro Lafaiete explica bastante o que entendo por amor é porque eu acredito que o amor é feito essas coisas que só quem sente pode explicar. Todos os relacionamentos são constituídos e construídos em cima de desconstruções históricas. São poucos os relacionamentos que se adaptam com vigor e permanência depois da corrida inflamada dos primeiros dias de paixão. Ainda que resistam, todo relacionamento pode falar de demolições e de superações.

Amar Lafaiete tem a ver com se apegar aos afetos da memória e aos detalhes que podem passar despercebidos pelo caminhar. Uma casa moderna, entre dois prédios, é feito o sorriso do cruzamento de um olhar em uma sala cheia de gente. Uma casa colonial, na esquina asfaltada, é feito a lembrança do primeiro encontro que nenhum dos dois seria capaz de esquecer. O barulho do trem é como a voz que vem nos despertar. Poderia até incomodar, mas é um afago poder te ouvir logo pela manhã. O que seria o amor senão entender e se apaixonar com a beleza do tempo e das coisas reais?

Conselheiro Lafaiete é, afinal, como uma dessas jóias indigestas. Talvez não reluza o brilho da pedra mais bonita, mas certamente espelha a força da pedra mais bruta. Da primeira vez que fui ao cinema na vida, no saudoso Cine Central, aprendi um antigo clichê romântico que diz: “Sempre teremos Paris”. Hoje, 26 de Dezembro de 2019, olhando uma antena de transmissão brilhando de luzes no alto desta cidade eu prefiro dizer: “Sempre teremos Lafaiete”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You May Also Like